21/02/2012

António Osório

                          Sarolta-ban-surreal



Não antecipes a tristeza
de morrer: não queiras muito
às lágrimas: consola-te
bebendo-as. E sê grato ao dia
em que, vivo, as tragaste.


Chimes of Freedom

Foi lançado uma compilação de 76 temas de Bob Dylan reinterpretados por mais de 80 artistas, para assinalar os 50 anos da Amnistia Internacional

20/02/2012

Cruzeiro Seixas

                              Julia Hetta


Nada do que amo me dá o que quero
por isso não amo
nem o amor
nem o sonho
nem a pintura
e os pintores
os heróis e o seu heroísmo,
nem estes meus poemas
copo de água fresca
que mais aumenta a sede.

Amo o que não amo
em todas estas coisas,
e indefinidamente
no fundo de tudo
amo a poesia e os poetas
que dão sempre mais
sempre muito mais
do que peço,
como tu,
mesmo eternamente ausente
meu amor.

Marin Sorescu

 Poeta romeno, nascido em 1936.

                                        Simon Siwak

Olha, as coisas
Estão cortadas ao meio,
De um lado elas
Do outro o seu nome.

Há um vasto espaço entre elas,
Espaço para correr,
Para a vida.

Olha, tu estás cortado ao meio.
De um lado tu,
Do outro o teu nome.

Não sentes às vezes ou no sonho
Ou à margem do sonho,
Que na tua fronte
Assentam outros pensamentos,
Sobre as tuas mãos
Outras mãos?

Só por um instante foste compreendido
Fazendo o teu nome
Atravessar o teu corpo,
De um modo sonoro e doloroso,
Como o badalo de bronze
Através do vazio do sino. 


19/02/2012

Laurie Anderson




Progresso

Hansel e Gretel estão vivos e de boa saúde
E a viver em Berlim
Ela é empregada num bar
Ele teve um papel num filme de Fassbinder
E à noite sentam-se a descansar
Bebendo Schnapps e gin
E ela diz: Hansel, dás mesmo cabo de mim
E ele diz: Gretel, quando queres és mesmo cabra
Ele diz: Desperdicei toda a minha vida com a nossa estúpida lenda
Quando o meu verdadeiro e único amor
Era a bruxa má
.
Ela disse: O que é a história?
E ele disse: A História é um anjo
Soprado para trás na direcção do futuro
Ele disse: A História é uma pilha de destroços
E o anjo quer voltar para trás e consertá-los
Reparar as coisas que foram quebradas
Mas há uma tempestade que sopra do Paraíso
E que não pára de empurrar o anjo
Para trás na direcção do futuro
E esta tempestade, esta tempestade
Chama-se
Progresso.

17/02/2012

Helga Moreira

          FranckJuery



Uma aragem, leve depois de um dia

de multo calor. Faltei ao emprego,

não fiz os deveres, não olhei para diante

nem para o lado, não fui

ao supermercado, não fiz

nem refiz abandonos.


Fiz de acaso, de imprevisto, não fui

à janela, não olhei o mar,

hoje, fiz todo o dia

só isto.


16/02/2012

Os fantásticos livros voadores do sr. Morris Lessmore


The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore from Moonbot Studios on Vimeo.


Manuel António Pina


                                         Gordon McBryde

A ferida



Real, real, porque me abandonaste?
E, no entanto, às vezes bem preciso
de entregar nas tuas mãos o meu espírito
e que, por um momento, baste

que seja feita a tua vontade
para tudo de novo ter sentido,
não digo a vida, mas ao menos o vivido,
nomes e coisas, livre arbítrio, causalidade.

Oh, juntar os pedaços de todos os livros
e desimaginar o mundo, descriá-lo,
amarrado ao mastro mais altivo
do passado. Mas onde encontrar um passado?


José Gomes Ferreira


                              by Ana mCachón



Ah! Se acontecesse enfim qualquer coisa!

Se de repente saísse da terra um braço
e atirasse uma rosa
para o espaço!

Mas não.

Lá está o sol do costume
com a exactidão
duma bola de lume
desenhada a compasso...

...sol que à noite continua
a andar em redor
nas entranhas da lua
- que é sol com bolor...

e desde que nasci,
haja paz ou guerra,
nunca vi outra coisa.

Ah! Como queres que acredite em ti
- braço que hás-de romper a terra
e atirar uma rosa?


Children Need Nutrition



Morrem 5 crianças por minuto devido a má nutrição crónica, segundo a organização “Save the Children”

«Despite global efforts to address food security, chronic childhood malnutrition has been largely overlooked, putting almost half a billion children at risk of permanent damage in the next 15 years, Save the Children said in a new report released today.

“Malnutrition is a largely hidden crisis, but it afflicts one in four children around the world,” said Carolyn Miles, President & CEO of Save the Children. “It wreaks lifelong damage and is a major killer of children. Every hour of every day, 300 children die because of malnutrition.”
Chronic malnutrition weakens young children’s immune systems, leaving them more likely to die of childhood diseases like diarrhea, pneumonia and malaria. It leads to 2 million child deaths a year, three times as many as result from acute malnutrition.

But, chronic malnutrition also leaves children far more vulnerable to extreme suffering and death from acute malnutrition when emergency food crises hit, as in the Horn of Africa and the Sahel right now. In total, malnutrition underlies 2.6 million child deaths every year, or one third of all child deaths.»


15/02/2012

Yves Namur

Poeta belga, nascido em 1952.

Dongfang-Tenghong


Caminhamos
E caminhamos numa solidão de areia,

Onde nada foi dito ainda das coisas que atravessamos
E das coisas que nos atravessam
Sem que o saibamos,

Onde a neve é a neve,
Onde a neve cobre toda a planura
E torna ainda mais espessas as nossas incertezas.

Caminhamos
Caminhamos desde sempre.

E não percebemos nada de nada.


14/02/2012

Inês Dias


                                Sarolta Bán



Quando me cansar de voar ou
a ferida estiver finalmente visível,
promete-me que a faca
será afiada e silenciosa.
Que eu não a veja chegar,
como se não tivesse passado
uma vida a pressenti-la nas dobras
do lençol, mortalha de tantas noites.

E antes dá-me de beber
entre as mãos, conta-me
de céus azuis, sem garras
e sem abismos. Espero que
o meu coração de novo pequenino
se aninhe no calor das tuas veias
e se torne apenas a memória de
um sobressalto contra a tua pele. 


Inês Dias



ET NUNC MANET IN TE

Meu amor,
a casa está tão sozinha que
os pássaros vêm morrer lá dentro.
Nada mudou, mas falta
a mão para acariciar o gato
e acolher a ninhada secreta,
o sorriso que enchia o tanque
e fazia crescer a horta.
Já ninguém apanha as laranjas mais altas
ou usa a sombra da nogueira.
E até os ciprestes se tornaram redundantes
ao ponto de os abatermos:
a ausência diz-se melhor no esplendor
inútil das rosas sem esse olhar,
nas papoilas raras que duram
o tempo de uma fotografia.
Um dia, deixaremos também uma casa assim,
casulo abandonado a sobreviver-nos.
Um de nós escutará as asas ansiosas
na chaminé, antes de pousar o livro
e amparar o último pássaro.
Só parecerá menos triste
porque não teremos, então,
nada mais a perder.

Dia dos Namorados



Verdade, verdade é que os sentimentos são um atraso de vida. Paralisam ou põem tudo em rodopio. Estremecem. Tiram de órbita. Afundam e ressuscitam. Fazem rodar as quatro estações. Na mesma tarde. Acreditam?




Verdade, verdade é que os sentimentos atrasam. Deixam o trabalho para depois. Despistam. Aproximam o pó das estrelas e distanciam o pó das sebentas. Que fazer? Suspiros. Olhares. Olhinhos. A linguagem passa perigosamente ao estado diminutivo sempre que os sentimentos perigosamente se expandem. O pior é que nem pela ironia se dá.




Mas a verdade, a grande verdade é que os sentimentos interessam. Tornam-nos gente. Ensinam-nos a ser. Pedem de nós o que trazemos de único e de irrepetível. E preparam-nos para querer, para desejar receber o mesmo. Do outro. Da outra. Um comércio puro, gratuito. Tão diferente, tão distante dos rotineiros comércios. (...)




A qualidade do nosso estar, aqui ou noutro lado, as coisas que temos ou que gostamos mesmo de aprender, os outros com que vamos tecendo o quotidiano, o sentido mais profundo que buscamos emprestar à nossa vida dão-nos estofo. Firmeza interior. Capacidade de construir. Não aconteça sermos nós uns atrasos de vida que fazem emperrar os essenciais sentimentos.




Texto: José Tolentino Mendonça
Fotografias: Steve McCurry

13/02/2012

Como virar a página do jornal




José Miguel Silva

                          De Laiguana



Não é fácil ser poeta a tempo inteiro.

Eu, por exemplo, nem cinco minutos por dia,

pois levanto-me tarde e primeiro há que lavar

os dentes, suportar os incisivos

à face do espelho, pentear a cabeça e depois,

a poeira que caminha, o massacre dos culpados,

assistir de olhos frios à refrega dos centauros.

Chegar por fim a casa para a prosa

de uma carne à jardineira, o estrondo

das notícias, a louça por quebrar. Concluindo,

só por volta das duas da manhã começo a despir

o fato de macaco, a deixar as imagens correr,

simulacro do desastre.

Mas entretanto já é hora de dormir.

Mais um dia de estrume para roseira nenhuma.




12/02/2012

11/02/2012

Carlos Queirós

                                                     Gürbüz Doğan Ekşioğl 


O nosso drama de portugueses,

O nosso maior drama entre os maiores

Dos dramas portugueses,

É este apego hereditário à Forma:

Ao modo de dizer, aos pontinhos nos ii,

Às vírgulas certas, às quadras perfeitas,

À estilística, à estética, à bombástica,

À chave de ouro do soneto vazio

- Que põe molezas de escravatura

Por dentro do que pensamos

Do que sentimos

Do que escrevemos

Do que fazemos

Do que mentimos.

10/02/2012

Herberto Helder (tradução)


                                           Dongfang tenghong


Nascemos para o sono,

nascemos para o sonho.

Não foi para viver que viemos sobre a terra.

Breve apenas seremos erva que reverdece:

verdes os corações e as pétalas estendidas.

Porque o corpo é uma flor muito fresca e mortal.


(Poesia Mexicana do Ciclo Nauatle)

09/02/2012

Homero Aridjis

Poeta mexicano, nascido em 1940.

                Dongfang-Tenghong



há seres que são mais imagem que matéria



     Há seres que são mais imagem que matéria

mais olhar do que corpo


     tão imateriais os amamos

que quase não queremos tocá-los com palavras


     desde a infância os buscamos

mais no sonho que na carne


     e sempre no limiar dos lábios

a luz da manhã parece dizê-los




José Luís Peixoto

                                                                           Jingna Zhang



A Mulher Mais Bonita do Mundo

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.
estás tão bonita hoje.
os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.
de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer. 



07/02/2012

Miguel Torga

Antoni Tàpies (13 de Dezembro de 1923 - Barcelona, 6 de Fevereiro de 2012)


À Beleza

Não tens corpo, nem pátria, nem família, 
Não te curvas ao jugo dos tiranos. 
Não tens preço na terra dos humanos, 
Nem o tempo te rói. 
És a essência dos anos, 
O que vem e o que foi. 

És a carne dos deuses, 
O sorriso das pedras, 
E a candura do instinto. 
És aquele alimento 
De quem, farto de pão, anda faminto. 

És a graça da vida em toda a parte, 
Ou em arte, 
Ou em simples verdade. 
És o cravo vermelho, 
Ou a moça no espelho, 
Que depois de te ver se persuade. 

És um verso perfeito 
Que traz consigo a força do que diz. 
És o jeito 
Que tem, antes de mestre, o aprendiz. 

És a beleza, enfim. És o teu nome. 
Um milagre, uma luz, uma harmonia, 
Uma linha sem traço... 
Mas sem corpo, sem pátria e sem família, 
Tudo repousa em paz no teu regaço. 



Alejandra Pizarnik







E nada será teu senão um ir até onde não há onde.



06/02/2012

Charles Bukowski

                            Robert and Shana Parkeharrison



Sozinho com toda a gente



a carne cobre o osso
e metem lá dentro um cérebro
e ás vezes uma alma,
e as mulheres partem
a loiça contra as paredes
e os homens bebem
demais
e ninguém encontra
o outro
mas continuam à procura
entrando e saindo
de cama 
em cama.
a carne cobre
o osso e
a carne procura
algo mais do que
carne.
não há qualquer
possibilidade:
estamos todos presos
a um estranho destino.
ninguém nunca encontra
o outro.
os esgotos da cidade enchem-se
os
 ferros-velhos enchem-se
os manicómios enchem-se
os hospitais enchem-se
os cemitérios enchem-se
nada mais
se enche.




Charles Bukowski

                                           Marcin


       OH SIM



          há coisas bem piores

          do que ser sozinho.

          mas às vezes levamos décadas

          a percebê-lo.

          e ainda mais vezes

          demasiado tarde

          e não há nada pior

          do que

          demasiado tarde

05/02/2012

Marguerite Yourcenar

Ángel Aguirre

solidão...



não creio como eles crêem,

não vivo como eles vivem,

não amo como eles amam...


morrerei

como eles morrem.


04/02/2012

Lia Ices

Lia Ices Official "Little Marriage" Video from Secretly Jag on Vimeo.

António Manuel Couto Viana

Collandre



CAFÉ DE SUBÚRBIO (23)


Dezasseis anos, talvez.

Vejo-a, no café, cada manhã,

A folhear, atenta, um compêndio de inglês,

Com um perfume a Escola e a maçã.


Não me canso de a olhar. Às vezes, olha

(Um velho!), num desvio de atenção,

E logo volta a folha,

Enquanto molha

O bolo no «galão».



Eu saio, com pesar, bebida a «bica».

Ela é a minha manhã,

Tão natural, tão clara… que ali fica.



– Que saudades da Escola! Que fome de maçã!